Havia nela uma estranha sensação de 'querer estar ali'. Inexplicável sensação, diga-se de passagem. Por que todo aquele vento, todo aquele frio de julho, faria qualquer um ir pra casa afundar em meio a cobertas e a programas sensacionalistas na televisão.
Mas não, hoje ela queria estar ali. Se emperdigou em um banco frio e cruzou os braços sob o peito. Das suas mãos pouco era capaz de sentir, o frio a impedia de tal, fez uma concha com elas e baforeou em seu vão na tentativa de aquece-las, e voltou a cruzar os braços. Ela sabia que não havia nada pelo que esperar, nem alguém a quem esperar, mas apenas queria e gostaria de esperar, como quem guarda toda a esperança do mundo dentro do peito.
A noite começou a cair formando um misto de cores quentes e frias no horizonte. O frio se intensificou a medida que o sol perdia sua influência sobre este lado da terra. Um ou dois cães passaram por ela naquele meio tempo. Sem muito interesse cheiraram o ar ao seu redor e continuaram sua tragetoria.
"E nem da compaixão dos cães me pareço merecedora hoje." Refletiu.
Um exagero, sempre exagerada. Sempre tentando encontrar meios de sentir pena de si mesma, mesmo sabendo que ninguém merece de fato este sentimento.
Levantou de súbito, a fome a incomodava, precisava comer. Pensou por um momento na lasanha de brócolis que ele fazia com tanto capricho toda quarta-feira ao meio dia. Daria qualquer coisa por um pedaço daquela lasanha.
Botou as mãos no bolso da calça jeans e começou a andar meio que sem rumo. Talvez passar naquele restaurante que iam aos sábados a noite? Talvez tomar um chá naquela cafeteria que iam nas sextas-feiras de chuva?
Não, não. Hoje é terça-feira, e nem está chovendo. E de qualquer forma não conseguiria entrar lá sem ele, sem sua mão grande e firme sob seu ombro, sem que ele abrisse gentilmente a porta para ela. Não, não seria capaz de abrir aquela porta sozinha.
" Que bobagem estou pensando! Eu posso fazer qualquer coisa sem ele!" Indignada com sua própria dependência. Mas algo lhe disse que na verdade não podia, não podia entrar naquele café por que a porta era pesada de mais para ser aberta por suas mãos, não podia ir até aquele restaurante sem as mãos ásperas dele envolvendo seus ombros, não conseguiria engolir uma só garfada de qualquer outra lasanha de brócolis a não ser a dele.
Pela primeira vez sentiu vontade de chorar, e trancou a vontade na garganta. Engoliu em seco balançando a cabeça. Era melhor ir pra casa, os gatos precisavam comer.
Virou a esquina e tomou o caminho de casa. O curto caminho até ela não pareceu aumentar, mas a dor sim pareceu aumentar. Sabia que não iria conseguir olhar para a poltrona vazia, sabia que não iria ouvir ele resmungando Jessé enquanto tomava banho e sabia que não haveria sapatos espalhados pelo chão do quarto. Sabia que de novo, não conseguiria dormir naquela cama enorme e acabaria caindo no sono no sofá da sala, rodeada pelos gatos, dele. Mas ela sabia a cima de qualquer coisa, que o que restara a ela depois de tudo eram apenas, aqueles malditos gatos.

Comentários

Anônimo disse…
Havia nela uma estranha sensação de 'QUERER ESTAR ALI'. Inexplicável sensação, diga-se de passagem.
AHAM :/

:*

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