O inverno tinha passado, o sol brilhava forte e majestoso naquele céu de dezembro em uma quinta-feira sem compromissos. Ameaçou levantar do sofá duas vezes, nas duas foi interrompida por aquele grande e inconveniente gato cinza. Diziam ser um angorá, aliás, ele gostava de afirmar isso sempre lhes perguntavam; “É um angorá legitimo, puro e de pedigree.” Já ela se mostrava descrente quanto a isso, pensava que aquele monstro enorme não pertencia a nenhuma espécie definida, se quer um gato poderia ser. E era assim que o chamava, “Monstro”. Obviamente esse não era seu verdadeiro nome, o nome dado por seu então dono era Felipe, o que não fazia sentido já que Felipe significava: “Aquele que gosta de cavalos”. Difícil pensar em um gato gostando de cavalos.
Monstro permaneceu sentado sob seu ventre a encarando e ronronando baixinho.
“Sai monstro.” Ela ordenou. Ele se quer se mexeu e continuou a encará-la daquele jeito, com os olhos semi-cerrados. E pelo jeito parecia estar ali a muito tempo, pois começara a sentir dores abdominais causadas pelo peso de Monstro. Ele fazia isso, costumava observa-la enquanto ela dormia tranquilamente. Ficaram os dois encarando-se por um longo tempo enquanto o sol os banhava já bem no alto céu.
“Vamos monstro, vamos comer, vamos sair.” Ela sugeriu a ele, e como se ele entendesse o recado recebido, saiu de seu colo com um salto para o chão. Esse gato sempre fora o preferido dele, de todos, o preferido. E desde que aconteceu, Felipe, o Monstro não a deixava por nada, como quem quisesse consolá-la, como quem tinha recebido uma missão de não sair jamais de perto dela. E assim o fazia.
Fez tudo que normalmente fazia desde então, arrastava-se pela casa, da sala para o banheiro, depois para o quarto, pra depois ir à cozinha e finalmente voltar à sala. Monstro a acompanhava, hora a observando de longe, hora fazendo zig-zag entre suas pernas. Deu de comer a ele e engoliu um ou dois biscoitos, para depois voltar a sentar no sofá. Monstro sentou em cima da televisão desligada. Sempre que ele fazia isso, ela tinha a impressão de que a tevê ia se desmontar. Ela bocejou, ele também.
“Quero sair Monstro.” Ela avisou. Monstro parecendo querer demonstrar espanto com o que acabará de ouvir, parou repentinamente de lamber a pata esquerda e a encarou incrédulo. Ele havia ensino a Monstro como passear sem coleira ao seu lado, o que, pra ela era uma bizarrice sem tamanho, mas se tratando das manias dele, essa bizarrice não era a pior.
“Vem comigo?” Ela convidou. Ele nesse momento, entendendo o que ela queria dizer paralisou, para ele nada disso parecia ser real. Ela levantou do sofá, pegou a chave de cima da mesa de centro e se encaminhou para a porta, abriu-a e antes de sair gritou: “Vem Monstro!” Ele pulou de imediato de cima da televisão e saiu se esgueirando antes que a porta fechasse. Os dois param um ao lado do outro em frente a porta. O sol batendo no rosto dela e nos pêlos cinzas dele. E como se aquela saída, depois de meses, tivesse sido ensaiada pelos dois, eles saíram juntos rumo ao desconhecido das ruas de que eles aprenderam a gostar.

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