- De novo não, de novo não. -Ela grunhiu apertando as mangas do moletom.
Mas sim, de novo sim.
Tinha um nó na garganta e a maquiagem borrada no rosto. Tinha o início de mais uma primavera e mais uma vez o coração partido.
Baixou a cabeça e passou rápido e sem olhar por um, dois espelhos do corredor e parou em frente ao terceiro. Como quem é incapaz de reconhecer a imagem refletida, procurou por longos instantes saber de quem se tratava aquela menina no espelho. Uma voz quase raivosa lhe invadiu os sentidos;
- Fala comigo porra! Fala comigo!
A voz e a quem ela pertencia agora estavam a suas costas, e esta imagem sim foi capaz de reconhecer.
Era, quem mais uma vez lhe fez chorar.
- Amor... - Uma calma forçada tomou aquela voz.
Ela entortou a cabeça para o lado e semi cerrou os olhos como quem analisa, o que de fato fazia.
- Eu nunca pensei que algum dia seria capaz de dizer isso... - Falou lentamente. - Mas eu não te quero mais. - Terminou calmamente.
Um sorriso torto, débil e até maldoso foi estampado no rosto atrás dela.
- Eu esperei que você não quisesse. - A calma agora era verdadeira.
- Esperou? - Perguntou confusa, surpresa.
- Esperei. Esperei que você não me quisesse mais por que você é incapaz de não me amar. - Havia vitória em sua voz.
Sim, era por essa pessoa egoísta, insensível, infiel por quem havia apaixonado-se
- Eu não me reconheço mais ao teu lado. Eu sei quem você é, apesar de ter sumido com a pessoa carinhosa, romântica e que me faz sentir tão bem. Eu sei que isso é parte de você. Mas não eu, eu perdi minha identidade ao teu lado, eu não sei quem é essa garota refletida no espelho ao teu lado. - O choro voltou cadenciado, mas sem vergonha de voltar. - Isso tá acontecendo de novo e de novo e de novo, e nós não saímos do lugar. - Com lágrimas vencendo seu rosto.
Como quem faz das dela a sua, também chorou, e agora também era incapaz de reconhecer-se. Quis toca-la.
- Não. - Ela repreendeu
- Eu não sei o que você está sentindo, eu não faço idéia do quanto você está sofrendo. Mas se eu sou o motivo de tudo isso, então é melhor eu ir. - Secou suas próprias lágrimas, virou-se e começou a andar na direção contrária.
Ela, com seus medos ali expostos, sentiu o peito comprimir de forma insuportável. Não podia jogar fora um amor pelo qual lutou tanto para viver.
Sem virar-se, fitando aquela figura ainda pelo espelho, pediu:
- Não vai. - A meio tom.
Parou.
- Eu te amo. - A voz disse chorosa virando-se.
Ela encarou no espelho a pessoa doce a quem amava e virou-se também. Pensou em correr em sua direção, mas não pode se mover.
Agora aos prantos, viu quem ama também aos prantos.
Voltar mais uma vez para seus braços e perguntar-se;
- Até quando?
Baseado em fatos reais. (e não durou muito mais)
Comentários