Deu duas garfadas no risoto e apenas balançou a cabeça enquanto ela falava sem parar sobre como ele era insensível. Ele não era insensível, apenas não ligava pra algumas coisas minúsculas as quais ela dava tanta importância.
Por um momento desligou-se do mundo, as vozes do restaurante lotado e os reclames dela ficaram em segundo plano. Aprendera nesses 7 e tanto anos de casado que sua querida mulher só precisava se sentir ouvida, e isso ele sabia fazer muito bem, mesmo que não prestasse a mínima atenção no que ela falava. Apesar de ser uma prática perigosa, já que ela muito ávida sabia tirar proveito da sua distração e assim havia conseguido adquirir, as custas dele, sua última bolsa Luis Vitton e a recente viagem a Roma. Ele não havia encontrado outra forma, outro meio de comunicar-se com ela sem ter enorme dor de cabeça.
“O que ela queria dessa vez?” Pensou.
Quanta injustiça da parte dele, ela era uma boa esposa, uma boa mulher, uma boa pessoa, só falava de mais.
Enquanto ela falava algo sobre dormir depois do sexo e ele assentia automático pensando “Você me fez parar de fumar, o que quer que faça?”, algo aconteceu. A porta do restaurante se abriu mais uma vez, junto com a brisa quente de verão ele pode sentir um perfume, um perfume inebriante, doce, quase enjoativo. Ele segurou-se para não olhar, mas não conseguiu. Sabia que seria xingado, advertido, mas não resistiu, alguns revés valem a pena.
Não quis negar, olhou mesmo. Seu faro nunca o enganara, ela era mesmo bonita. Mas era bonita de mais, de mais de mais. Aquele olhar altivo, o salto muito alto, a roupa que vestia denunciava sua importância, executiva, administradora de algo grande, gerente, algo assim. Tudo em câmera lenta, o único som audível era o dos seus saltos batendo no chão em um ritmo que pareceu música para ele.
- Ei! – A linda mulher que estava a sua frente na mesa chamou sua atenção.
- Ahm? – Ele voltou de súbito à realidade. – Desculpe-me amor, me distrai.
- Percebi. – E continuou a falar.
Ela passou por ele e sentou a 3 mesas da deles. Pernas cruzadas, falando ao celular, uma amiga, pensava ele, a sua frente, igualmente bonita a ela, mas sem o mesmo brilho, o mesmo encanto. Lembrou ele nessa hora do que uma velha amiga lhe dizia; “ Uma mulher quando é bonita de mais ou é lésbica ou não é mulher.” Sempre considerou essas possibilidades em todas as mulheres bonitas que via, mas dessa vez o fez com certa tristeza. Poderia estar encantado por um travesti ou corria risco de apanhar da namorada dela.
- Amor? – Uma voz doce o chamou. – Tu ta bem?
Voltou a tona.
- Estou sim querida, só estou um pouco cansado. – Ele disse esfregando os olhos.
- Você quer ir para casa hoje depois do trabalho? Não precisamos ir até minha mãe se você não estiver bem. – Ela tocou sua mão enquanto falava tão docemente.
Ele sorriu bobo olhando para aquela mulher que chamava de “minha”, e sentiu-se estúpido por ter olhado para o lado. Segurou a mão dela entre as dele e disse carinhoso:
- Tudo bem amor, duas horas com sua mãe não vão me matar, nós vamos sim.
Ele não procurou mais por aquela mulher depois disso, tinha a mulher que amava e queria passar o resto da vida ao seu lado, não interessasse o quanto ela falasse ou o quanto ela gastava em bobagem. Ela era linda, era ótima, era a mulher perfeita, a quem ele nunca havia traído e quem nunca trairia. Ele a amava, muito. Terminaram o almoço e saíram. Enquanto esperavam o carro em frente ao restaurante, ele a abraço gentilmente por trás e cheiro seu pescoço, gostava tanto daquele cheiro. Ela retribuiu com um beijo no rosto.
Para surpresa dele poucos segundos depois de pararem ali, aquela mulher linda e sua acompanhante pararam ao lado deles. E não pôde não observar quando aquela linda mulher passou o braço pela cintura de sua “amiga”. É, ele estava certo, ela era lésbica. Sorriu como quem vence alguma coisa e abriu a porta do carro para a, sua mulher.
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