Penso que ao menos poderia ter sido avisada sobre tal. Sem explicações, apenas um aviso, algo que a pudesse alertar que a noite seria fria, que a vida seria fria e que seria melhor ficar no ventre para sempre, mantendo aquela temperatura gostosa até para quem esta nu. Ó céus, nascemos nus, para que tantas roupas então?
Ainda chateada por não ter recebido um manual de instruções, como tudo que se compra em lojas de departamento, botou as luvas e saiu porta a fora.
Todo mundo a cumprimentava nas ruas e ela se quer sabia quem eram aquelas pessoas, tinha algo em mente, alguém em mente, não precisava de mais nada além daquilo. Sorriu abobalhada uma ou duas vezes, tentando demonstrar interesse, mas não queria saber de nada. Seguiu firme, pelo que lhe pareceu ser quatro ou cinco quadras, seguiu o cheiro que já que era familiar, aquele cheiro que havia ficado em sua roupa desde a ultima vez. Por um segundo sorriu, lembrando daquele desenho animado em que o pássaro levitava atrás do cheiro da comida. Sentia-se assim de alguma forma, sentia-se cega indo atrás de seu objeto de desejo.
Estava lá em frente aquela casa, já tinha estado ali antes, mas eram por outros motivos, por outras paixões e sentiu-se idiota de novo por não ter visto antes o que estava a sua frente. Com freqüência fazia isso, com freqüência se deixava levar por bobagens, se é que aquilo tudo podia ser considerado uma “bobagem”. Não, bobagem não era. Mas enfim, agora não queria mais saber daquilo, queria isso.
Esticou o dedo para tocar a campainha, e antes que pudesse consumar o ato, paralisou. Sua mente em alta velocidade deglutia informações, estava agitada de mais, sua mente estava, não seu corpo, seu corpo estava apático, talvez congelado pelo frio. Começou a fazer um movimento débil, ‘para frente e para trás’, ficando na ponta dos pés e depois jogando o peso do corpo pra seus calcanhares.
“Ele gosta dela, que gosta dela, que gosta dele, que gosta dele, que gosta dele, que gosta dela, que gosta dela...”.
Maldito mundo bissexual, hoje em dia ninguém mais “se salva”. Devaneios. Não precisava estar ali, não assim. Devia ter conversado com o Paulo antes, devia ter tomado uma ou duas doses de tequila antes de sair de casa. A tequila sempre ajuda, em qualquer momento.
Tirou as luvas e as pôs no bolso do casaco de lã de batido. Sempre sentia-se em um filme dos anos 20 quando usava aquele casaco, estilo gangster, só faltava o chapéu e os sapatos bico fino bem polidos. Olhou a hora no celular; 17:17. Números iguais, o que significam será? Não faço idéia. Mas pela situação não lhe parece nada bom. Fixou um lembrete em sua própria mente; “pesquisar o que significa 17:17.”
Bom. Eu vou embora. Eu vou embora não por falta de coragem, eu vou embora por falta de argumento. Não posso simplesmente vir aqui e dizer que precisamos ficar juntos. Precisamos por que? Pra que? Precisamos nada. Eu quero, você já não sei. Às vezes parece que sim, às vezes parece que não.
Virou o tronco de súbito para a esquerda e começou a andar pra longe dali. Depois de 2 esquinas geladas pensou em ligar, mas daí foi capaz de reconhecer; aquilo não era amor, era vontade. Como pôde ser tão burra?! Revoltou-se consigo mesma. Pra quem já viveu tantas coisas, aquilo era inaceitável. Aprendera a lutar por um amor, como aprendera a lutar contra uma vontade desmedida. E aquilo era apenas vontade, vontade desmedida.
Tomou o rumo de casa mais leve, mas consciente de que se a vontade virasse amor, ela voltaria aquele lugar, munida de argumentos, munida de coração.
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