Eu percorri apressada o caminho que leva da parada de ônibus até a frente do prédio 8. Estava atrasada, de novo. Meio distraída tentando ajustar o volume do mp3. Quando vejo quase em cima do laço a colega sentada no banco em frente ao prédio, meio triste, encolhida como se algo a tivesse feito mal.
- Que que foi meu?! - Cumprimentei simpática. =]
- Nada. -Sorriu amarelo.
- Sei.. - Desconfiei. - Não vai pra aula?
- Não, não to legal. Vou pro bar daqui a pouco. Vai depois?
- Ahhmm. Eu tenho que ir pra aula, mas depois vou pra lá. - Respondi tentando retomar o rumo para meu prédio.
- Ahh. - Desanimo e desapontamento em níveis alarmantes.
Parei e a encarei. De impulso pulei para o lugar no banco ao lado dela e passeio o braço por cima de seus ombros.
- Meuu! Não fica assim baixo astral!
Ela sorriu de canto, baixou a cabeça e encolheu-se ainda mais diante do meu abraço. - Diz ae! - Insisti.
- Nós terminamos. E agora acho que é pra sempre, de verdade. - Meio chorosa.
- Ahh meu! Mas por que isso?
- Eu não gosto igual, não correspondo. Não consigo ficar mais junto assim. Só que nós ficamos horas no celular discutindo a mesma coisa. Chorando, dizendo que to fazendo sofrer, que não posso ser assim tão ruim. Agora eu sei como é estar no teu lugar.
- Tu sabe que não adianta ficar junto se não gosta, que isso só faz as duas partes sofrerem. E a culpa não é tua, ninguém escolhe de quem vai gostar. - Pensei um pouco. - Mas como assim sabe como é estar no meu lugar?
- Tu sempre esteve do outro lado.- Sorriu zoando. - Sempre é quem fica impassível, sem sofrer.
- Que mentira meu! - Meio que gritei. - Eu sofro, sofro horrores. Só que eu sofro por coisas que valem a pena, não por qualquer pé na bunda que eu levo.
- Tá, eu sei. Tu sofre também.
- É. - Eu concordei jogando meu corpo para trás no banco.
Alguns momentos de silêncio.
- Mas como que faz pra esquecer, pra retomar a vida sem isso? - Ela perguntou olhando pra frente.
- Sem isso o que?- Eu indaguei distraída.
-Como se vive sem viver o amor que se sente?
Pensei.
- Não se vive. É impossível acostumar-se com o fato de não viver um sentimento. O que acontece, é que aprende-se a viver uma outra vida, uma sub-vida sem ele. - Com tom de voz que define tudo.
- Eu não sei viver assim. - Ela falou com a voz fraca encolhendo-se no banco ainda mais.- Eu não sei procurar nos outros o que eu não posso ter com esse sentimento.
Eu me estiquei e cruzei os braços na frente do peito virando o olhar para o céu.
- A questão não é procurar nos outros o que tu não tem dele, a questão é procurar algo diferente dele. Nada vai ser igual, mas sempre vai ter alguém diferente e melhor em tudo, que te faz se sentir melhor.
- Eu não vou sair por ai catando. - Ela disse irritada.
- Isso não se procura colega, essas coisas encontram a gente. - Eu falei bocejando.
- Eu queria ver as coisas como tu vê as vezes, parece muito mais difícil, mas bem mais definitivo.- Cerrou o punho e o chacoalhou.
Silêncio.
- O tempo tá lindo... Sempre que a URI fica assim, é por que vem chuva. - Comentei.
- E se ele corresse atrás de ti hoje? - Ela perguntou virando-se pra mim curiosa.
- Eu diria não. - Falei tranqüila e sem hesitar
- Mesmo? - Surpresa.
- Mesmo. Eu encontrei pessoas incríveis na vida nesse meio tempo, que gostavam de mim, pessoas a quem eu daria tudo para ter gostado, mas não gostei de verdade. E sempre que eu encontro alguém que me faz bem, que me faz esquecer, que me faz querer ser melhor, eu me jogo de cabeça, sem pensar em mais nada. E nesses momentos eu digo "não" pra ele com toda certeza desse mundo. - Falei empolgada.
- Verdade. - Suspirou. - Tu não tem que ir pra aula?
- Merda!

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