Andávamos pelas ruas nos achando grande coisa. Fechando os olhos e erguendo o queixo para o céu, deixando cada rajada de vento passar e trazer com ele os cheiros daquele lugar, o perfume das pessoas, cheiro de café em cada esquina, o cheiro da comida que era feita em cada meio metro de vida disponível. Andávamos distraídos pelas ruas de pedra milimetricamente aprumadas, olhando as magnificas construções, curiosos e risonhos para tudo que nos era estranho e desconhecido. Riamos do idioma, dos homens, das mulheres, mas não riamos debochados, riamos abobados, encantados com aquela vida tão simples e diferente da nossa, mas que já daríamos tudo para ter igual.
Queríamos sentar em todos os bares e restaurantes possíveis e tomar mais um suco de laranja, comer mais uma pizza de muzzarela e procurar no mapa mais um lugar legal pra ir. Tentávamos abraçar a cidade com as pernas, caminhando o máximo possível, por todos os lugares possíveis. Queríamos mais uma medialuna, mais um desconhecido simpático disposto a falar sobre qualquer besteira, sobre câmeras, sobre seu caso extra conjugal, sobre sua vida. Queríamos trocar bebidas com completos desconhecidos, esbarrar em músicos de rua, em artistas fantásticos e deixar-lhes mais uma moedita.
Queríamos ajuda, ganhamos compaixão, preocupação. Ganhamos histórias de que só um ser humano comum teria a criatividade de viver. Ganhamos bondade e gentileza, sorrisos e atenção e estávamos ali sem nada a oferecer em troca a não ser nossa companhia. Em cada quilometro percorrido uma nova lição e uma esperança.
Rodaríamos por rodar, pra sair dessa vida, desse marasmo, dessa mediocridade, queríamos a vida lá fora, queríamos a estrada nua e crua. Éramos nós usando camisas de flanela e nossas mochilas. Éramos nos e nossa excitação crescente e incontrolável.
Queríamos testar nossa sorte, queríamos provar pra nós mesmo e para todo o resto do mundo que nossa loucura era completamente possível, como de fato foi.
Rodamos 2100km pra ter certeza que nossa casa é onde queremos estar, que inconseqüências planejadas teem seu sabor, queríamos um lugar para lembrar com saudade.
Queríamos histórias pra contar, gostos novos pra provar, lugares novos para visitar. E tudo isso de fato tivemos e muito mais. Tudo isso e ainda mais, de bônus atamos a mais improvável amizade dos últimos tempos. Valeu vagabunda.
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