Amo ser “difícil de se lidar”, assim, poucos se aproximam e menos gente ainda fica por aqui, e com esses que ficam acabo atando uma relação de autodestruição mútua, pessoas com quem posso me afundar de mãos dadas, o ápice da irmandade. O fato é que ninguém aqui faz muita questão de agradar, graçasadeuz, e bem por isso mesmo as relações acabam sendo mais verdadeiras, todo mundo se xinga e se manda a merda quando tem vontade e se convir a todos os interessados, depois tudo estará bem, como se nada tivesse acontecido, um jeito meio torto de fortalecer laços, mas inegavelmente eficiente.
É tudo meio previsível, se sabe os próximos passos que serão dados, se sabe quem vai chorar, quem vai rir, quem vai mandar a merda, quem não vai esboçar reação alguma e quem vai fingir que não se importa com coisa alguma e depois vai pra casa chorar. O fascinante e nauseante emaranhado das relações humanas. Eu tento entender, sem muito esforço na verdade, sou só mais uma parte mal acabada dele. Tão desprezível e ao mesmo tempo tão necessário, ao menos o que parece a todos, somos incapazes de viver só, sem companhia humana.
Eu começo aos poucos a duvidar dessa necessidade, tento aos poucos parar de me importar, parar de querer mudar, parar de querer precisar. Eu tento a cada dia da minha vida, não querer tanto contato e agradecer pelo que já tenho. E não falo de contato físico, falo de relacionamentos afetivos desnecessários e que nos sugam tudo que já nem temos de vida. Sexo a parte, por favor.

Dizia Fernando Pessoa que se somos incapazes de viver só, estamos em uma espécie de escravidão. Nessa escravidão todos nascemos, e quase nenhum de nós sairá. Seria eu um deles? Podia né.

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