Merda. Merda de dia. Mais um dia de merda. Ele só queria chegar logo em casa, tirar os sapatos que apertavam seus mindinhos, tomar um banho e dormir. Pensava que, quando um homem tem como máximo prazer tirar seus sapatos, então alguma coisa está terrivelmente errada em sua vida.
- Eu costumava gostar de assistir jogos de futebol, hoje nem isso. - Ele pensou alto, estacionando o carro na garagem do seu prédio. Pegou o elevador e foi direto para seu andar, não encontrou com ninguém, não falou com ninguém, se quer sabia quem eram seus vizinhos. Sorriu ao lembrar das suas fantasias com vizinhas novas pedindo xícaras de açúcar. Do jeito que o mundo anda, no máximo uma de adoçante.
Entrou em casa e jogou, casaco, sapatos e gravata na poltrona do hall de entrada. Sentiu falta do seu cachorro vindo lhe receber, pobre Bob, morreu. Mas ao menos não precisava mais ficar o dia todo trancado naquele apartamento esperando seu dono carente chegar.
A chuva, antes fina, começou a cair violentamente contra a vidraça da sacada.
- Noite perfeita para dormir. - Pensou ele. - Vai esfriar, feliz de quem tem companhia.
Ele não tinha. Foi casado uma vez, sua mulher o deixou, não conseguiu conviver com seu comportamento anti social. Depois disso, uma namorada, e depois disso, desistiu. Como se fosse assim fácil, só desistir.
Seu velho, e talvez único amigo, foi morar na Holanda. Ideiazinha mais infeliz essa de morar do outro lado do oceano, deixando-o aqui sozinho. Teve depressão por alguns meses, mas logo desistiu, ter depressão dava muito trabalho. Hoje em dia se contentava em ler, almoçar todos os domingos com seu sobrinho e dormir de meias, o resto era complicado demais.

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